Lentes escuras

Era bom, concordo. Voltando os anos, a linha do tempo parece uma fita métrica solta no céu escuro, mal cabe na cabeça. Quanto mais se volta, menos preocupação se encontra, mais se afasta desta vida cheia de horários e medos.

Mentira, concordo. As proporções eram outras, os nomes os mesmos.
É tudo regra na fase que for.

Alarme, levanta, leite, 7h20, se arruma, tranca a porta, elevador, carro, sinais, sinais, sinais, esquina, (Catchim!) ponto, computador, 12h, (Catchim!) ponto, sinais, sinais, sinais, almoço, alarme, sinais, sinais, sinais, computador, 18h, (Catchim!) ponto, sinais, sinais, sinais, casa.

Senta e levanta, vai e volta, com barbantes amarrados nas articulações.
Uma música, um filme, um capítulo novo no seriado de hospital pra gente saber
que mudou de dia, que não é uma eterna continuação.

É basicamente isso, é o que parece. E parece tanto que a gente só sabe falar disso e calcular quanto tempo falta pra amanhã e o quanto estamos longe de ontem.

Queremos a grama mais verde e a do vizinho está tão seca quanto a nossa. A grama verde ficou no verão passado, na estação que já voltou e já passou de novo e esses óculos de sol constantes não nos deixou ver.

A rotina é tanta que parece que é só isso. Não existe mais nada nesse mundo que valha uma linha de caderno. Só isso. Essa rotina e esses barbantes presos nos braços. 7h, 7h20, 12h, 13h30, 18h, 00h. São só relógios, cartões de ponto, textos espremidos em quatro linhas.

São 7h32, surge no espelho do elevador como um vapor discreto: “Pra quê?”
A porta abre, a chave dá partida, melhor não perguntar.

inspiração

Uma calça mostarda já bastava. Vinham as palavras, as linhas, a ordem, o texto e a correção. Tudo pronto antes de chegar ao papel. Andava uns metros, viajava alguns minutos, qualquer tijolo fora do lugar era assunto.

A criatividade era parte, um membro, um braço, era natural. Mas depois de meses de seca literária, refaço: era um acessório, daqueles que se esquece sem querer no assento do ônibus, na pressa louca de chegar logo.

Cheguei, achei que tinha chegado, pelo menos. A pressa valeu a pena, mas não compensa a falta que as danadas me fazem. Era texto dormindo, comendo, tomando banho, brigando, tudo era texto. Era motivo e motivação.

A criatividade deve ter se perdido entre tanta criatividade por aqui.

Vai ver que falam tanto que acabei sem ter o que falar.

Vai ver que sugam tanto, que fiquei sem ter o que transbordar.

E pra quem não sabe mais escrever, fica o aviso e a ironia: uma rima finaliza bem o texto.

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Aos 23.

Lembra que a gente acreditava na pane total dos computadores com a chegada do ano 2000? A gente achava que 18 anos na carteira de identidade seria a carta de alforria e os 20 anos marcariam nossa entrada para o mundo adulto. Nada disso aconteceu.

Por tantas vezes na minha vida – e esse é um texto muito pouco literário e muito-muito pessoal – as mudanças significativas de fase vieram sem que o calendário programasse. Não vieram com os 15, os 18 ou 20. Vieram de repente, sem asterisco no fim da página, sem anotação na mão.

Às vezes eu chego a pensar que mudei de página, de capítulo ou até de livro e nada. Outras, eu olho no espelho e está lá: é outra. Mas uma outra já muito íntima, talvez por culpa do cotidiano, dessa rotina incessante entre a gente e a gente mesmo. Sem descanso. A gente se acostuma com nossa nova faceta.

Eu sinto que dessa vez, como conseqüência de todas as outras vezes, a gente está chegando no final do último capítulo. Já com o outro livro esperando na cabeceira.

Os galos na testa de tantas vezes insistir numa parede branca, dura, áspera e intransponível me trouxeram pra mais perto da vida adulta. A quantidade de maçanetas no caminho e as minhas mãos ásperas (simbolicamente, lógico) de tanta insistência, os cabelos brancos (nem tão simbolicamente, lógico) de tanto aprendizado, me fizeram ver de quantos cômodos é feita essa casa.

Aos 23, me sinto muito mais. E não consigo nem dar complemento ao verbo. Neste fim de capítulo, o importante mesmo é sentir.

O que vale é estar preparada para fugir com mais rapidez e mais bom humor das minhas armadilhas. É me reconhecer no espelho, no tamanho das roupas, na espessura dos cabelos. É entender, com argumentos novos a cada dia, por que eu, com tudo que carrego e despejo, com tudo que sou e o outro tanto que deixo de ser, continuo aqui.

Por que todos eles continuam ali, me esperando pro abraço.

De tantos “Feliz Aniversário”, eu tive um Aniversário Feliz.

Aos 23, me sentindo.

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Em defesa da viúva

A viúva veste jeans e tomara que caia verde. Daqueles que vêm com bojo que segura a vontade da blusa de deixar tudo cair.

Ao contrário das companheiras de categoria – status? condição social? – não lista as mazelas da vida como resposta ao retórico “como você vai?”. A viúva responde que vai bem, cada dia melhor.

Além de tudo ousa ser loira.

A loira entra no carro que era do marido com a liberdade que sempre entrara: como se fosse seu. Compra um ou outro vestidinho interessante, vai a almoços de família, comemora aniversários, lava o cabelo, faz as unhas, passa batom. Continua.

A viúva incomoda e deixa rastros de palavras não ditas enquanto passa no corredor. Todo mundo querendo saber porque a vizinha não sofre, porque não está de luto, porque não aparece no elevador com olheiras nos olhos. Ninguém se conforma com a continuação da alegria de viver.

Ninguém percebe que na vida daquela loira tanto já mudou, tão radicalmente. Teve que recolher a escova de dente ao lado da sua, a cama quase torta pelo vazio de um lado, as roupas no guarda-roupa que não saem, não mudam, não somem do lugar. O almoço com uma pessoa a menos, a mala com tanto espaço a mais. Aquele tanto de cintos e meias e gravatas.

Tudo tão diferente em questão de horas e ninguém percebe porque ela não quer mudar nada mais.

Quando a gente perde alguém, perde um pedaço da gente.

Se resolver mudar o que ficou… A gente se perde da gente.

Em defesa da viúva.

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ponto de vista do amor

Sentada no banco, num ponto de ônibus mal coberto, lendo anúncios de TV num encarte de jornal.  O olho só levantava – e muito brevemente – para vigiar a chegada do ônibus. Não se afastava com a chegada de outro passageiro em potencial, não respondia aos possíveis “bom dia”. Levava sua vida como sempre havia levado nesses trinta e tantos – ou poucos – anos. Vivia.

Ele atravessava a rua de baixo, caminhava com pastas na mão.

Era como se os ponteiros de dois relógios, lado a lado, andassem, cada um a seu ritmo. Um atrasado, o outro adiantado, os dois esperando a chegada do segundo que os colocaria no mesmo passo.

Atravessou a rua, guardou os papéis nas pastas, ainda distante olhou para o ponto de ônibus. Ela folheava o anúncio, ele olhava o ponto.

Atravessou a rua e sentou-se.

Ela vivia sua vida como sempre havia vivido.
Até o fim deste dia, ela não precisava dele para viver.
Ela vivia sua vida.
Era tudo calmaria, era vida.

Ela não pediu nem procurou.
Vivia sua vida.
Ele puxou conversa.

Foi o fim da calmaria.