domingo

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Eu sinceramente acho que vim nesse mundo para ser filósofa, mas aconteceu de me jogarem na época errada e eu acabei chegando aqui, crescendo e odiando filosofia. Eu nasci e vou morrer querendo saber o sentido da vida. Não por que, mas pra que estou aqui. Num dia assim como esse, num dia depois de muitos dias com enxames alvoroçados de emoções, eu descubro que às vezes – mas só às vezes – não importa o motivo. Eu estou aqui, vocês estão aqui e isso tem feito a diferença. Têm sido o conforto, o apoio e o desabafo. As risadas! Têm sido tantas gargalhadas! Demorou, mas estão fazendo a diferença no caos da minha vida entre o ser jornalista e o ainda não ser. Hoje foi um domingo. Não pensei nos meus afazeres como alguém que vive. Vivi.

imperativando

Você está sentada no restaurante. A cadeira poderia ser mais confortável, o som um pouco mais baixo e o garçom menos violento com os copos. Mas você já sentou, já acomodou os cotovelos… Continua por lá mesmo. Você pediu peixe, veio carne de porco. Ah, vai assim mesmo, vai demorar tanto pra fazer outro pedido… Você queria a vida de um jeito, ela está de outro. Você continua vivendo… Afinal: é só essa vida que existe mesmo.

 

 

O conformismo deveria ser temporário, um passageiro nos seus dias. Nunca parte da sua vida. Questione! O peixe, a cadeira, o atendimento, a vida que não está como você planejou. Questione o que você acha que não tem resposta, a conclusão que não está boa o suficiente. Questione porque, pelo menos por um bom tempo, esta será sua única vida. Vivê-la por viver, porque ela está aí e você não tem coragem de se livrar dela é uma sacanagem com as horas de parto que a sua mãe enfrentou pra que você descesse nesse mundo.

 

 

Rejeite sabedorias de pára-choque de caminhão, duvide dos conselhos gagás. Aceite que é possível que você não tenha vindo ao mundo para conhecer todas as boates e ser reconhecida como a maior bunda do Brasil. É possível que você tenha um objetivo mais importante por aqui. Movimente-se, pergunte, discorde, aja.

 

 

Deve existir um motivo para os seus defeitos e qualidades, alguma explicação para que alguém tenha te mandado para cá. É bem possível que você seja um inútil, mas quem sabe você consiga reverter essa situação. Encontrar algo para se preocupar, algo que seja mais amplo que a circunferência que envolve o seu umbigo. Não viva achando que é só isso: nascer, brincar, crescer, beijar, estudar, casar cozinhar, ter filhos, netos, bisnetos e morrer. Você pode encaixar mais verbos aí no meio. Mais vida. Mais significado.

 

 

 

 

Procure os verbos.

Aqui, procura-se.

à bunda

Estava eu super concentrada na minha “leitura de fotos de revistas” na bicicleta ergométrica quando eu dou de cara com esse texto. Genial! Muito, muito bom. Normalmente as cartas da coluna da Fernanda Young não me empolgam muito, são engraçadas, bem feitas, mas sei lá…
Mas essa aí é uma das melhores! Sim, eu “leio” a Revista Cláudia.

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À bunda,

Olha, desta vez você passou das medidas. Só não boto você para fora, agora, porque é a sua cara dar escândalo. Estou cheia de você atrás de mim o tempo todo. Fica se fazendo de fofa, enquanto, pelas minhas costas, chama a atenção de todo mundo para meus defeitos. Você está redondamente enganada se pensa que eu vou me rebaixar ao seu nível – o que vem de baixo não me atinge. Mas faço questão de desancar essa sua pose empinada.


Você é, e sempre foi, um peso na minha existência – cada papel que me fez passar… Diz-se sensível e profunda, mas está sempre voltada para aquilo que já aconteceu. Tenho vergonha de apresentar você às pessoas, sabia? Por que você nunca encara as coisas de frente, bunda? Fica parecendo que, no fundo, tem algo a esconder. Por acaso, faz alguma coisa que ninguém pode saber? O que há por trás de todo esse silêncio?


Você diz que está dividida e que eu preciso ver os dois lados da questão. Ora, seja mais firme, deixe de balançar nas suas posições. Longe de mim querer me meter na sua vida privada, mas a impressão que dá é que você não se enxerga. Porque está longe de ter nascido virada para a lua e costuma se comportar como se fosse o centro das atenções. Bunda, você mora de fundos, num lugar abafado. Nunca sai para dar uma volta, nunca toma um sol, nunca respira um ar puro. Vive enfurnada, sem o mínimo contato com a natureza. O máximo que se permite é aparecer numa praia de vez em quando, toda branquela. Não é de admirar que esteja sempre por baixo. Tentei levar você para fazer ginástica, querendo deixar você mais para cima, mas fingiu que não escutou.

 

Saiba que você não é mais aquela, diria até que anda meio caída. E vai ter que rebolar para mexer comigo, de novo, da maneira que mexia. Lembro do tempo em que eu, desbundada, sonhava em ter um pouquinho mais de você. Agora, acho que o que temos já está de bom tamanho. E, pensando bem, é melhor pararmos por aqui antes que uma de nós acabe machucada. Sei que qualquer coisinha deixa você balançada, então não vou expor suas duas faces em público. Mas fique sabendo que, se você aparecer, constrangendo-me diante de outras pessoas, levarei seu caso ao doutor Albuquerque. Lamento, isso dói mais em mim do que em você, mas você merece o chute que estou lhe dando. Duplamente decepcionada,




Fernanda Young é escritora, roteirista e apresentadora de TV