ponto de vista do amor

Sentada no banco, num ponto de ônibus mal coberto, lendo anúncios de TV num encarte de jornal.  O olho só levantava – e muito brevemente – para vigiar a chegada do ônibus. Não se afastava com a chegada de outro passageiro em potencial, não respondia aos possíveis “bom dia”. Levava sua vida como sempre havia levado nesses trinta e tantos – ou poucos – anos. Vivia.

Ele atravessava a rua de baixo, caminhava com pastas na mão.

Era como se os ponteiros de dois relógios, lado a lado, andassem, cada um a seu ritmo. Um atrasado, o outro adiantado, os dois esperando a chegada do segundo que os colocaria no mesmo passo.

Atravessou a rua, guardou os papéis nas pastas, ainda distante olhou para o ponto de ônibus. Ela folheava o anúncio, ele olhava o ponto.

Atravessou a rua e sentou-se.

Ela vivia sua vida como sempre havia vivido.
Até o fim deste dia, ela não precisava dele para viver.
Ela vivia sua vida.
Era tudo calmaria, era vida.

Ela não pediu nem procurou.
Vivia sua vida.
Ele puxou conversa.

Foi o fim da calmaria.

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663

São 663 atos secretos.
Seicentos e sessenta e três.
Milhares de coisas acontecem e a gente não sabe.
Milhares de coisas acontecem, a gente sabe, mas esquece.
Milhões de votos que a gente distribui sem saber no que vai dar.
Mas a gente sabe no que vai dar.
Mais do mesmo.
Bonito é o presidente falando pra gente não discutir política.
Não essa política.
É pra discutir a crise no Irã ou às vezes nem isso.
Costumo não entender o que Brasília quer da gente. Ou finjo.
Frustra.
Depois não entendem porque querem acabar com o Jornalismo…

meus namorados

blog 5

Walt Disney deve ter colocado isso em algum de seus filmes. Lá no meio da fumaça ou no meio de uma catarata deve ter enfiado essa filosofia de vida em forma de frase. Em algum ponto da minha infância, entre TV Cultura e Angélica, enfiaram na minha cabeça que pra ser uma namorada legal, você tinha que torcer pelo time do seu amado.

Lá fui eu nas minhas primeiras experiências, tão pouco ou nada correspondidas, saber se o time do cara estava bem, qual o jogador mais famoso e etc. Era a famosa vira-casaca: troca de amor, troca de camisa. Assim, passei por dois times paulistas até me fixar no meu atual time de namorado: Palmeiras.

São quatro anos de romance, com mais arranhões do que beijos, mas com uma história vitoriosa. O alviverde imponente esteve comigo nas datas mais importantes, como aniversários pessoais e aniversários de namoro.

Sobrevivemos. No insuportável som AM lá estava ele, meu time de namorados, no ardor da partida, prontos pra acabar com o meu jantar. Tivemos brigas memoráveis, como naquele 22 de outubro, ainda no primeiro desses quatro anos. O dia em que eu descobri que meu namorado era só coadjuvante nessa trama, eu namorava mesmo um time de futebol.

Com o tempo, entendi que torcer pelo Palmeiras era torcer por mim mesma. E mais que torcer pela vitória do time, eu vi que precisava torcer para que os jogos nunca caíssem nas minhas insignificantes datas comemorativas. O que, na verdade, era mesmo torcer por mim mesma.

Ái de mim querer competir com o alviverde.

Aprendi também que não basta só torcer para que o Palmeiras ganhe, isso não garante minha noite de tranqüilidade. É preciso que todo o universo, o campeonato alagoano, japonês e húngaro conspire para que tudo corra bem no Campeonato Paulista, Libertadores ou qualquer um desses mil que o Palmeiras participa. Podem até ser três ou quatro, mas pra quem é obrigado a girar conforme esse mundo futebolístico, parece ser tão mais que isso…

E assim, continuamos juntos, até porque não adianta lutar contra a defesa que ninguém passa. Entre nós, eu e o time, existe um alguém que não sabe qual amor agradar. E quem sou eu pra enfrentar? Eu cheguei agora, o Palmeiras está aí há 22 anos…

he rocks

Um jovem talento da TV brasileira amarga uma difícil dúvida: Se a ex entrar em um restaurante enquanto ele ainda estiver comendo, deve sair imediatamente do local? Sem pagar a conta, sem dar a tão costumeira gorjeta ao garçom?

 

Os dois moram na mesma cidade e bairro. Faltando pouco para tremer os beiços, Dado Dolabela relatou seu drama pessoal para a TV Record na manhã de hoje. Não por acaso TV que assina seu contrato, não por acaso no programa de maior apelo popular do canal.

 

A ordem judicial que proíbe o modelo – e não ator e não cantor – de ficar a menos de 150 metros da modelo, atriz e famosa frustrada Luana Piovani pode parecer absurda. Os dois freqüentam a mesma praia, as mesmas ruas e festas. Como, então, não desrespeitar a lei?

 

Bom, isso não é problema meu nem da Justiça nem da ex que foi agredida, muito menos da camareira. Quem tem que descobrir como isso é possível e desafiar as leis da física é ele, o querido e sempre tão amável Dado.

 

Uma tropa de atores, amigos e familiares deram seus depoimentos de como “isso tudo que andam dizendo na imprensa não combina com o Dado”. Não, não combina mesmo. Como pode a pessoa que apronta um escândalo na MTV por causa de nada ser a mesma que joga a namorada no chão, também por causa de nada? Não, não combina com ele.

 

                                  notguilty 

 

O fato jornalístico, porém, não é nem seu namoro nem o tamanho de sua idiotice ao posar com uma fita métrica em um camarote durante o último carnaval – no qual sua ex estava presente. Discute-se em quais casos e tipos de relacionamento a Lei Maria da Penha deve ser aplicada. Muitos questionam sua aplicação em namoros e noivados como o de Luana e Dado.

 

O programa mudou os rumos e tanto a reportagem quanto os comentários sempre pertinentes do pseudo jornalista Brito Júnior não conseguiram me tirar uma dúvida. Preocupou-se muito em mudar a fama de plaboyzinho metido do ator e pouco em discutir a legislação sobre violência contra as mulheres. Assunto de interesse do público alvo do programa: as donas de casa, casadas, juntadas, divorciadas, que sofrem, sofreram ou poderão sofrer agressões físicas e morais por parte de seus maridos.

 

Para um programa em que até o cozinheiro se diz parte da comunidade jornalística, faltou informação. Muita informação.

 

Porque é que no noivado de Luana e Dado a lei não seria aplicada? Se a Justiça tivesse interferido na relação de Eloá e seu namorado – caso tivessem denunciado as agressões já sofridas pela garota – o fim teria sido outro? Caso a lei tivesse sido aplicada para tantos outros casos de namoros, noivados e outros tipos de relacionamentos não tão oficiais quanto um casamento sacramentado em cartório e Igreja, muitas mulheres teriam sido salvas de marmanjos que compensam a falta de cérebro no braço?

 

Tudo bem, é só o Hoje em Dia, é só a TV Record, é só o Brito Júnior e companhia LTDA. Mas se para eles, aquilo é Jornalismo, se para a Record Dado é inocente, está faltando informação, comprometimento e debate.

 

Dado is not Guilty.

Dado rocks.

 

Se eu não morasse aqui, não soubesse quem é o tal do Dado – tudo bem, não precisa ser de outro lugar para desconsiderar sua existência – só por essa frase e essa foto, ele já seria culpado por muitos outros crimes. Contra o bom senso, por exemplo.

banheiros públicos

Paranóia, paranóia!

Não, não é paranóia! É completamente possível! O meu medo finalmente faz sentido, agora eu posso estufar o decote e gritar: Eu desconfio de banheiros públicos! Na verdade, eu evito o máximo, mas depois de um tempo a situação fica crítica. Não dá! É hora de pegar naquela maçaneta nojenta, entrar naquele lugar fedorento, com papel higiênico usado pulando por todos os lados, o chão molhado sabe-se lá de quê, o vaso sempre com um resquício de qualquer coisa.

 

Apesar de toda essa imundice que são os banheiros públicos, não é isso que me faz ficar longe deles, não é só isso. Eles têm uma coisa que o meu banheiro não tem: estranhos. Pessoas mal intencionadas, pervertidas, com tara de vizinho enxerido, mania de voyeur. Doentes no auge das suas demências, que instalam câmeras em banheiros públicos – e às vezes privados – porque estranhamente gostam de ver as pessoas fazendo xixi. Porque é isso que mulher faz no banheiro! No máximo levantam o vestido para dar uma arrumada na calcinha, dão uma mexida no decote, mas é isso!

                                  sanita2

 

Até aí tudo bem, é uma invasão de privacidade que não invade muito (o que pra mim já é invasão mais que suficiente). Agora quando as câmeras são instalas em vestiários ou banheiros particulares, onde você toma banho e etc… aí é motivo de castração! Tem que mandar cortar fora mesmo. Não sabe usar, não merece o brinquedo!

 

Dois casos deste tipo de invasão – perversão – foram noticiados na última semana. Uma câmera foi encontrada no vestiário das funcionárias do metrô do Rio de Janeiro e outro no banheiro do quatro de um cruzeiro pela costa brasileira. Castração aí é pouco. Já entra na categoria do olho por olho, dente por dente. Expulsar de cruzeiro não é nada, ser demitido é pouco, ser preso, pagar fiança, voltar pra casa e fazer de novo é absurdo! Tem que ter humilhação nessa história… Tem que chamar pai, mãe, esposa, cunhado, sogra. Tem que ter reunião familiar pra contar o que o desgraçado do parente fez. Porque vergonha se paga com vergonha. Prisão não é humilhação suficiente.

 

Mas a minha vontade mesmo é mandar cortar.

 

*Só pra desabafar e ver se destrava essa língua e esses dedos. Pra ver se escapole um texto produtivo daqui. Enquanto isso, vou falando de castração, porque de mudança de vida, de ares, de rotina.. Disso eu já cansei da falar.