cabelo

É só cabelo.

Preciso entender isso. São só alguns fios de cabelo.

Não é como se tivessem outra vez mutilado a minha sobrancelha.

O corte ficou bonito, deu até uma modernizada, é uma nova fase da vida, é bom desapegar de certas coisas. Com a prova do crime caída no chão, ele disse: VOCÊ usa o cabelo, não é o cabelo que usa você. Só consegui pensar na música do Frejat e pensei porque ele não incluiu essa frase na letra. Quem é dono de quem? Eu ou o cabelo?

Dizem que quem perde uma perna, fica com a sensação de perna fantasma, como se ela estivesse lá. Comparação infeliz, mas só pra dizer que eu não sinto mais os dez dedos que se foram. Não é como se estivessem ali, o corte foi tão drástico, que nem cabelo fantasma sobrou.

É só cabelo.

Cabelo cresce.

É bom mudar.

É uma nova fase, merecia um novo cabelo.

Antes o cabelo que a sobrancelha.

O que importa é que o corte ficou bonito.

Foi bom, vai te refrescar nesse calor.

Ta lindo, o que importa é que seu cabelo é liso.

Tenho a impressão de que quando a gente inventa muitas frases de consolo é porque a coisa não ta muito bem. Mas ainda assim, é preciso se prender em algo pra continuar: é só cabelo.

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ele NÃO está afim

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Ir ao cinema sozinha uma vez é desafiador, como eu disse antes, uma prova de amor a si mesmo. Ir ao cinema sozinha duas vezes é provar que esse amor é de verdade, vai longe…

Ou talvez seja o sinal de que uma nova tradição está sendo criada. Grandes decepções pedem tardes sozinhas no shopping coroadas com uma sessão de cinema. Dessa vez não teve a coincidência de um amigo na poltrona ao lado, mas teve a mesma atriz na tela. Coincidentemente Scarlet Johansson estava lá pra me lembrar o quanto é duro não ser ela.

Comprei o ingresso cheia de confiança, com nariz empinado e cara de solidão-opcional. Era, sim! O tempo comigo mesma era muito necessário, ambas sabíamos que esse momento estava por vir. Era preciso fazer as pazes, mais uma vez.

Entrei na sala e descobri que a cadeira que eu havia marcado – coisa idiota que só se explica em noite de estreia – era péssima. Mudei de lugar e fiquei com medo de ser pega pelo lanterninha e ser convidada a me retirar do meu encontro a dois.

Acabou que não existia lanterninha e nenhum outro espectador tentou acabar com a minha noite. De certo o dono do lugar que eu ocupava entrou, olhou pra mim lá solitária com as minhas sacolas e sentiu pena de me pedir pra sair de lá.

Me acomodei e fiquei pronta pro filme, crente de que era mais um filme na minha vida. Um bom filme com a Jennifer Aniston. Mas então.. eis que então surge a Jennifer Connelly na história e mela com toda a MINHA história de vida.

Observação pertinente: Se eu pudesse morrer e nascer de novo ainda nessa semana, eu escolheria nascer a Jennifer Connelly, com mais pernas e bunda, mas ainda assim ela.

História vai, história vem e o filme conta que ela casou com o colega de sala da faculdade [ ái…], que vem a ser o melhor marido do mundo. Aí mais um pouco de história se desenrola e este belo moço de cabelos lindos e bunda boa de dar amasso, palavras da Scarlet, descobre que não aproveitou suficientemente a vida e resolve que o chifre é a melhor solução

Nó total na pobre da minha cabeça, tão influenciável, já que sempre acredito em tudo que os filmes me dizem. Saí de lá arrasada e com a certeza absoluta de que só as feinhas – já que no filme quem se dá bem não é nem a Johansson nem a Connelly, mas a outra mocinha – e a Jennifer Aniston tem chances reais e promissoras no amor.

Se ele não liga, se ele não quer casar com você, se ele já tem tendências cafajestes mesmo antes do casamento, se ele não se lembra das datas importantes ou do seu lanche preferido, se ele pensa três vezes antes de responder uma mensagem…

Querida, não é que ele não está afim de você, ele é só um bundão, um bunda mole, que pode até ser boa de dar amasso, mas que murcha logo depois.

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de dentro da calça mostarda de barra insistente

 

 

A barra da calça mostarda era feita a mão, a linha fazendo caminhos pontilhados, um em cima do outro. De tão assimétricos, de tão insistentes, mais pareciam um enfeite do que um esforço para que a barra não se desfizesse. A camisa não estava tão surrada, o cabelo estava até curto, mas a barba parecia que não via água – e sabonete – há uns bons dias.

 

No corredor ele arrastava um resistente saco – daqueles usados para transportar grandes quantidades de sementes – e uma sacola de feira. Lotada, só não vi de quê.

 

Seria mais um passageiro dentre os muitos passageiros que entram no ônibus quando ele sai da Praça Cívica. Um dentre uma minoria que parece não estar voltando ou indo para o trabalho ou faculdade. Estão ali, a caminho de um lugar qualquer, às vezes, lugar nenhum. Só para sair do lugar.

 

Entramos juntos, ele se sentou num daqueles bancos individuais. Eu me sentei na última fileira do ônibus, alguns bancos atrás. Sem janela ao lado para olhar, eu olhava para os passageiros, para o motorista lá na frente, as pessoas que chegavam e iam pelas escadas.  barra

 

O homem olhava um relógio de pulso de camelô, de vidro arredondado e números grandes. Olhava sem aparentar que procurava as horas, admirava os ponteiros.

 

Minutos antes do horário de pico da tarde, o ônibus estava vazio, as pessoas ainda corriam para o ponto enquanto ele partia. O barulho da nova frota – mas sonoramente tão velha – de Goiânia era interrompido quando o sinal ficava vermelho. Minutos preciosos de “silêncio”.

 

Numa dessas paradas, o senhor de calça mostarda se levanta da cadeira, como se fosse embora.

 

_ Prrrrr. Prrrrrrrrr. Prrrrrrrrrrrr.

 

Minha bolsa era grande suficiente pra que enfiasse a cabeça e me matasse de rir, mas não tive forças para tanto. Olhei para as pessoas ao lado, todas procurando um desastre, um pensamento triste qualquer para livra-los daquela vontade incontrolável de cair na risada.

 

Não senti o cheiro daquela profusão de gás nocivo em pleno 008, mas imagino o que o moço sentado logo atrás deve ter passado.

 

Pessoas ordinárias teriam se ajeitado na cadeira, levantado para arrumar o bolso da calça e numa leve distração da platéia, soltado o que tanto queria sair. Mas ele não. Destemido, ele fez o que tinha que fazer, mesmo que fosse no momento mais silencioso da viagem. Ele fez!

 

Pra mim, aquilo já havia valido o dia. Por essas e outras que as melhores histórias saem de dentro dos ônibus. A concentração de fofocas, problemas familiares, discussões e gases letais é alta demais.

 

O momento de felicidade momentânea foi, minutos depois, interrompido. A calça mostarda de barra insistente se levantou novamente, o dono dela, por sua vez, puxou toda a gosma da garganta e escarrou pela janela do ônibus.

 

Pronto, acabou a magia.

Odeio pessoas que escarram em locais públicos.

 

 

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ensinando a imaginar

Costumo demorar horas para escolher um filme na locadora, mas dessa vez puxei um dos primeiros que vi na prateleira. Depois de “I am Sam” e “Valetin”, dificilmente filmes sobre a relação entre pais e filhos me decepcionam. “Ensinando a Viver”, com o John Cusack, entrou para a lista dos 10 mais da categoria.

 

Na verdade, a relação entre um pai em potencial e um terráqueo em potencial não era o ponto central da história, pelo menos não para mim. O marcante foi a importância dada a imaginação, principalmente durante a infância. Dennis – dos lábios mais vermelhos que eu já vi na vida – é um menino abandonado pelos pais, que vive dentro de uma caixa por ter medo de se expor ao sol. Até aí nada de muito interessante, mas Dennis tem um diferencial: ele vem de Marte.

 

Para mim, a consciência de David (John Cusack), candidato a pai de Dennis, de que o excesso de imaginação era uma característica essencial na personalidade do menino já valeu o filme. O que para o resto dos personagens era um problema, para David era o que compunha Dennis.

 

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Talvez o filme não seja lá essas coisas e o final ficou meio “Querida, estiquei o bebê” (não tem nada a ver, mas eu só conseguia lembrar desse filme). A intenção, por outro lado, é linda. Não é só um pai aprendendo a lidar com o novo filho. É um terráqueo que valoriza a imaginação de um marciano e um menino descobrindo a linha que divide imaginação da vida real. Terra e Marte. Pai e filho. O que é defeito, o que é qualidade e o que é característica, o que forma a personalidade.

 

A chatice, a loucura, as manias insuportáveis, os piores defeitos. Tudo que parece ser ruim, mas muitas vezes é o que te faz ser você.

 

Achei lindo, inclusive a lógica das teorias do menino, que usa um cinto de pesos porque a gravidade da Terra é fraca e Marte fica sempre o atraindo de volta.

 

 

Até cortar os defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” (C. Lispector)

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2009

blog7O meu ano não termina no dia 31 e o próximo não começa no dia 1º de janeiro. Por motivos ainda indeterminados, meu final de ano vem recheado de acontecimentos, daqueles que só te derrubam pra você se levantar mais poderoso, achando que agora você pode tudo [quando na verdade você pode do mesmo tanto].

Meu 2008 já terminou. Me despedi dele com um adeuzinho de costas e fui recolher os cacos, desconfiando minutos mais tarde de que menosprezei o que pode ter sido o 3º ou 4º melhor ano da década. Terminou em novembro, com uma chuvarada de preocupações, perdas, desânimo e em dezembro eu comecei em passos lentos o meu novo-ano-novo.

Amanhã oficialmente será 2009. E eu não sei se deveria colocar mais metas aqui. Não sei o que eu quero, tenho medo de pedir e não ser bem interpretada. Quero paz, mas nem tanto, não todos os dias. Quero novidade, mas não muita, não de uma hora pra outra. Acho que quero equilíbrio na maior parte desses 300 e tantos dias.

A única coisa que eu tenho certeza que quero é um emprego de jornalista. Só não tenho muita certeza onde, fazendo o que, mas isso eu quero e não tem problema se não entenderem bem esse meu pedido. Qualquer interpretação anda valendo.

Então, chega logo 2009, pra eu poder me encaixar no calendário normal. Pra gente andar lado a lado e de repente você sair correndo me puxando pelo pulso. Quando eu perceber já não é mais esse ano e o susto vai vir com uma sensação muito antecipada de velhice.

Começo o ano [de vocês] mais tranqüila sabendo que já estou cumprindo o que não necessariamente era meta, mas que era necessário. Um álbum de fotografias e recortes finalizado, um livro novo, uma viagem e uma coisa que há anos eu venho procurando: não criar expectativas sobre nenhuma data comemorativa. Que venha o que vier, mas na folhinha nova do calendário.

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