Em defesa da viúva

A viúva veste jeans e tomara que caia verde. Daqueles que vêm com bojo que segura a vontade da blusa de deixar tudo cair.

Ao contrário das companheiras de categoria – status? condição social? – não lista as mazelas da vida como resposta ao retórico “como você vai?”. A viúva responde que vai bem, cada dia melhor.

Além de tudo ousa ser loira.

A loira entra no carro que era do marido com a liberdade que sempre entrara: como se fosse seu. Compra um ou outro vestidinho interessante, vai a almoços de família, comemora aniversários, lava o cabelo, faz as unhas, passa batom. Continua.

A viúva incomoda e deixa rastros de palavras não ditas enquanto passa no corredor. Todo mundo querendo saber porque a vizinha não sofre, porque não está de luto, porque não aparece no elevador com olheiras nos olhos. Ninguém se conforma com a continuação da alegria de viver.

Ninguém percebe que na vida daquela loira tanto já mudou, tão radicalmente. Teve que recolher a escova de dente ao lado da sua, a cama quase torta pelo vazio de um lado, as roupas no guarda-roupa que não saem, não mudam, não somem do lugar. O almoço com uma pessoa a menos, a mala com tanto espaço a mais. Aquele tanto de cintos e meias e gravatas.

Tudo tão diferente em questão de horas e ninguém percebe porque ela não quer mudar nada mais.

Quando a gente perde alguém, perde um pedaço da gente.

Se resolver mudar o que ficou… A gente se perde da gente.

Em defesa da viúva.

Posted in Ela

Estima

Autoestima é construção. Trabalho e dedicação de toda uma equipe, de pessoas que lançam sobre nós os primeiros olhares, daquelas que nos dão as mãos ao longo do caminho, daqueles que nos deixam de pás e cimento em mãos, com o trabalho por fazer.

A desconstrução e a obra parada também fazem parte da construção.

Colocam tijolos, alisam a massa, dão aquela batidinha estratégica pra colocar tudo no lugar. Ficamos ali, algumas vezes espectador, outras pedreiro. Por tantos dias nem a obra visitamos. E o muro vai se construindo.

Alguns têm mais sorte e já entram na casa com tudo pronto, parede limpa, móveis no lugar, pronta para uma morada calma e tranqüila.

Outros esperam que a obra fique pronta, ficam no barraco improvisado esperando o dia de mudar. Mas quando chega a hora, chega a hora. A gente muda com a parede por fazer, a sala sem pintar. Aquele cheiro de cimento seco, de tijolo sujo, mas a gente muda.

A vida vira o caos, porque quando se está dentro da casa, o tempo, o dinheiro e as forças são poucas para retomar a obra. Ninguém quer ajudar, você não tem mais paciência pra isso. Fica como está. A gente arruma quando der.

Pendura um quadrinho na parede, passa um perfuminho na casa, compra um tapete novo achando que vai melhorar, que ninguém vai perceber essa obra mal acabada.

A gente percebe, você percebe também e numa dessas chuta a parede, caem os tijolos. Mais trabalho pela frente.

Autoestima é construção.
A gente só deveria se mudar com a casa pronta.
A vida vira o caos.
Mas a gente passa um perfuminho, arruma um namorinho e finge que está tudo bem.

Posted in Ela

apenas um sonho

Do tipo que mandam flores e não recebem cartão.
São do tipo que programam o dia, a hora do banho, o tempo necessário para uma maquiagem perfeita e cabelo impecável. Daquele tipo que se preparam, que anseiam, que esperam.

São do tipo que aguardam.
Ansiosas pela passagem do dia, pelo toque do celular, pela ligação na hora do almoço. Que planejam o mês seguinte, escolhem o próximo presente, procuram dicas.

Do tipo que deixam dicas.
Espalhadas por conversas, insinuações, dizem o que querem pelo o que te dão.

Daquele tipo complicado, que não sabe o que quer, que finge que quer o que precisa. Que finge que precisa do que tem.

São do tipo que não sabem quem são, tampouco para onde vão, onde pretendem ficar, parar, permanecer, se familiarizar. Casar.

São do tipo que hoje querem e ainda hoje deixam de querer.
E logo cedo voltam a querer de novo.

Do tipo que planejam e embarcam em viagens a sós e deixa as mãos livres à espera de companhia. E perdem o vôo esperando o ocupante da poltrona ao lado chegar.

Daquelas que pedem pra que provem o contrário, que imploram uma teoria que comprove seu erro, o quanto é bonito, o quanto não importa se nem sempre é verdadeiro.

Que pedem um sinal de que são felizes, um gesto de que é verdadeiro. Daquelas que esperam com tudo o que tem em mãos você dizer se é pra ela ficar ou ir.

E por dias acreditam e em horas deixam de acreditar novamente.

Do tipo que entendem, se solidarizam e por fim se cansam.
De empilhar bilhetes em gavetas alheias, de se inclinar deixando o ombro disponível.

Do tipo que querem saber se são felizes, que esperam você provar.
Do tipo que são felizes.
Daquele tipo difícil que moram com a felicidade, mas acham difícil acreditar.

São aquelas que agora dificilmente acreditam.

600--foi_apenas_um_sonho_g[4]

Posted in Ela

dela

6a00d83451632b69e200e54f2a56b98834-800wi1

 

 

  

Neste corpo, nas pontas dos dedos, nos fios de cabelo que são tocados, existe um tanto de alma. Um tanto de ser humano, que não é corpo, não é carne. É gente, é vida, é criança. Menina.

 

Quando te arrancam a inocência não te levam só a infância. Vai também um pedaço de alma, um segredo íntimo, um algo que era só seu. Era só dela. Levam os sonhos, as brincadeiras, o que era família, achava que era amor. Levam a mesa de jantar, a cama arrumada.

 

Quando invadem, levam embora uma menina. Devolvem uma pessoa indefinida, alguém que não sabe se é criança, se é mulher. Se é virgem, se é mártir. Se cristã ou pagã.

 

Quando invadem – arrancam, machucam – devolvem uma pecadora, a portadora de um mal que excomunga. Devolvem uma imagem pública, uma notícia de jornal. Uma vida nova, uma nova mãe. Aquela que sofre sem saber como curar, que sofre sem saber como defender o direito de mãe. E o direito da filha de não ser mãe. O direito de viver, de continuar a infância, caminhar a partir de onde parou. Pegar as bonecas e não os bebês, a vida machucada, retomada, mas ainda vida, ainda viva. Ainda criança. Ainda com Deus. Sem Igreja, mas sempre com Deus.

Posted in Ela