o véu

Uma das partes do processo de evolução – ou, como queira, amadurecimento – é tirar o véu de santidade com o qual nós envolvemos algumas pessoas. Lá pelo final da infância descobre-se que o pai, ou em outros casos a mãe, não tem capa, não usa a cueca pra fora do macacão coladinho. Papai não tem topete brilhante em forma de vírgula nem sabe voar. Papai não te salva de tudo e nem sempre está certo. Mas quando a ex-criança se torna um pré-adolescente é que a crise começa. Papai não só erra como costuma estar errado sobre a maioria das coisas.

 

 

E assim, nessa fase crítica – do ponto de vista estético e intelectual – da vida, começa o longo processo de “puxar o véu da santa”. A professora não é a mamãe e nem sempre quer somente o seu bem. Às vezes, mas só às vezes, ela tem o prazer sanguinário de te ver sofrer e ser castigado pelo destino. O velhinho que pede dinheiro na esquina, aquela coisa mais fofa do mundo, tem casa e tv de LCD na sala. A maldade-boazinha sempre esteve aí, desde sempre, mas você demorou pra perceber.

 

 

Por isso, puxar o véu da santa é importante. A gente cresce e vê que santo, se existe, está lá em cima, não vive aqui e não reparte com você o pão que o diabo amassou. Cá embaixo somos todos seres humanos e passamos a vida assistindo a oscilação do nosso nível de maldade. Estamos todos na mesma e o certificado de santidade só tá valendo se levar pra Deus assinar. Pessoalmente.

 

 

O certificado não é automático nem pra quem foi mandado por Deus pra representá-lo enquanto ele se fizer ausente. Tem padre que mente quando fala que você tá perdoado, tem freira que mente quando fala que não achou o pedreiro gostosão, tem pastor que usa as moedas da caixinha da Igreja pra comprar pão pro café-da-manhã, tem espírita que escreve livro/publica cartas vindas de lá de cima…da sua imaginação inflada de ego.

 

 

Pessoas totalmente malvadas têm aí aos montes. Matam, roubam, torturam, assustam. Esses aí estão na fila pra outro certificado, do departamento que fica no andar inferior. Documento fácil de arranjar. Mas gente boazinha, que não joga o lixo no chão, não desconfia de negrinho descalço e nunca ofereceu cafezinho pro guarda… só os que trabalham no andar da Diretoria.

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